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O problema que a indústria leva para 2012


2011 terminou deixando movimentos que ainda serão muito estudados pelos economistas, como o real efeito das medidas macroprudenciais na expressiva desaceleração da economia brasileira ao longo do ano, a resistência do emprego à mesma desaceleração e a profunda retração na produção industrial. Entre outros, esses tópicos comporiam uma lista das 10 maiores surpresas econômicas do ano, com certeza.

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Dos três, o total descolamento entre a produção nacional e o Produto Interno Bruto (PIB) é o que deixa uma interrogação com cara de problema para 2012, 2013, 2014…. A indústria terminou 2010 com uma produção 10% superior à de 2009, enquanto o PIB cresceu 7,5% na mesma comparação. Em 2011, o setor vai, na melhor das hipóteses, crescer 0,5%, para um PIB próximo a 3%.

Além do crescimento pífio, o resultado dos últimos três meses mostra que a indústria brasileira nunca se recuperou efetivamente da crise externa – a produção está hoje 3% inferior à do auge pré-quebra do Lehman Brothers em setembro de 2008. O número parece pequeno, mas 3% significam cerca de 75 mil automóveis a menos por ano, ou 65 barris de petróleo por dia ou 57 mil demissões no ano.

A concorrência importada chegou aos semimanufaturados

O que mais intriga é que, na mesma comparação, o consumo doméstico está hoje 24% maior. Em três anos, a produção industrial encolheu 3% e as vendas do varejo (um bom indicador do comportamento do consumo das famílias) cresceram quase um quarto!

A conclusão quase óbvia na análise desses dados é que a importação tem ocupado um espaço cada vez maior no abastecimento da demanda interna – no lugar de um calçado nacional, um sapato coreano; no lugar de uma máquina “made in Brazil”, uma alemã; no lugar de feijão brasileiro, feijão chinês!

E o buraco parece bem profundo, como é possível ver no detalhamento da pauta brasileira de importações, que traz informações surpreendentes, como o fato de que o maior aumento na compra externa de bens industrializados não ocorreu em produtos manufaturados, mas em semimanufaturados, onde importamos 35% mais que em 2010. Por exemplo: o 16º item semimanufaturado mais importado foi óleo de dendê, produto no qual o país gastou US$ 46 milhões entre janeiro e novembro (413% mais que em 2010). No mesmo período, importamos US$ 415 milhões em alumínio bruto e US$ 328 milhões em celulose – todas commodities com larga tradição de produção no país. Ou seja, a concorrência “made in mundo” chegou aos bens tipicamente “made in Brazil”.

O cruzamento das informações de volume importado com produção nacional permite sustentar, com argumentos fortes, essa hipótese. A importação de bens produzidos pela indústria de transformação passou de uma presença de 17,3% para 20,4% entre 2008 e 2011. No mesmo período, a exportação perdeu importância para o mesmo setor e sua participação encolheu três pontos percentuais. Há alguns casos emblemáticos, como o da celulose importada, que já representa 30% do consumo nacional, segundo estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex).

Mas se a indústria está tão acossada pela concorrência importada e produz um volume 3% menor, porque não vemos demissões no setor? Por que as campanhas salariais continuaram negociando aumentos reais para os trabalhadores da indústria ao longo de 2011 se o custo salarial em dólar está 10% maior que em 2008, como informou a repórter Arícia Martins, em recente reportagem no Valor? Por que a arrecadação incidente sobre o lucro das pessoas jurídicas não financeiras ainda cresce acima da inflação?

As respostas não estão nos indicadores, mas existem pistas. A própria Confederação Nacional da Indústria (CNI) indicou, em estudo feito neste ano, que o próprio setor que está aumentando suas importações, seja de matéria prima e peças, seja de produto acabado. Com isso, seu faturamento evolui, enquanto a produção encolhe.

Enquanto mecanismo de sobrevivência, a estratégia da indústria está correta e evita “mortes” ao longo do caminho. Mas e o futuro?

Enfrentar de forma mais decisiva os elementos que corróem a competitividade nacional é tarefa para qual o governo deveria realmente dedicar energia. Por enquanto, o que se viu foi mais do mesmo em uma trajetória que repete equívocos protecionistas, como os recentes anúncios que envolvem IPI maior para carros importados ou a mudança no cálculo da tarifa de importação sobe têxteis. É a indústria toda – e não um pedaço dela – que se ressente de impostos elevados, câmbio fora do lugar, infraestrutura precária e crédito ainda caro.

Por sua vez, a indústria precisa investir mais em inovação, copiar menos produtos, agregar mais valor, investir mais na formação da sua mão de obra, pensar no longo prazo e não em lucros imediatos.

Não há nenhuma novidade no diagnóstico desse arcabouço das tarefas que cabem ao Estado e às empresas, mas o tempo está passando. É cedo para que a economia brasileira seja liderada pelo setor de serviços porque a renda e a composição da população brasileira ainda não são de primeiro mundo. Embora, às vezes, esqueçamos disso diante dos relatos da fúria consumista brasileira em Miami.

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