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O pior já passou. Mas reflexos mais graves ainda podem estar por vir


Na tentativa de manter a tranqüilidade diante da crise global, o governo federal adotou a tese de que o pior já passou. Ministros como Guido Mantega, da Fazenda, e José Múcio Monteiro, das Relações Institucionais, deram entrevistas na última semana transmitindo a mensagem de que o país sobreviveu à fase mais aguda da turbulência.

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De fato, os mercados se comportaram melhor nos últimos dez dias – o Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) passou de 29 mil pontos, no dia 27 de outubro, para 40 mil pontos na terça-feria, dia 4, enquanto o dólar tem oscilado menos do que nas três primeiras semanas de outubro. O problema da tese oficial é que ela deixa de fora todos os efeitos da crise sobre a economia real, e desdenha do risco de um novo momento de pânico.

“Discordo da avaliação do governo”, diz o economista Marcelo Curado, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR). “O que passou foi uma fase de ajustes nos preços de ativos, como ações e o dólar. O reflexo da crise no lado real da economia será mais grave e não está nem perto de ter mostrado a cara inteiramente.”

A tese do governo precisa ser descartada juntamente com a idéia de que os mercados emergentes se descolaram do mundo rico. A economia global está sendo freada. De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), o crescimento mundial cairá de 5% em 2007 para menos de 2,2% em 2009. Estimativa que é considerada uma recessão segundo os critérios do Fundo. Diz a economista Virene Roxo Matesco, professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV): “Os últimos dados sobre a economia norte-americana mostram uma desaceleração muito forte. Na Europa e Japão, a mesma coisa. 2009 será um ano difícil por aqui também.”

O fato de os mercados financeiros terem saído do período maníaco-depressivo das semanas que seguiram a falência do banco de investimentos Lehman Brothers, em 15 de setembro, mostra apenas que os pacotes de salvamento lançados nos Estados Unidos e Europa evitaram uma catástrofe: o derretimento do sistema financeiro. As previsões agora se baseiam no fato de ainda existir um sistema que precisa ser recapitalizado e regulado para voltar a funcionar normalmente.

“Os bancos centrais agiram de maneira eficiente até agora e não vemos mais um risco de quebra sistêmica”, afirma o professor de finanças Haroldo Mota, da Fundação Dom Cabral. “Agora é hora de acompanhar de perto o que as empresas estão fazendo.” Fatos como a redução de produção da Vale, siderúrgicas trabalhando abaixo da capacidade e férias coletivas nas montadoras são sintomas que podem ficar mais graves até o primeiro semestre de 2009.

Os dados da economia brasileira ainda não refletiram totalmente a onda de pânico nos mercados. O índice de produção industrial brasileiro referente a setembro, divulgado na semana passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrou um desempenho ainda forte, expansão de 1,7% em relação a agosto. Quando saírem os números de outubro, o tranco sofrido pelo país ficará claro. Para 2009, as previsões crescimento econômico estão na faixa de 3%, e caindo. Pouco, diante dos 5% de 2008. Como reflexo, o desemprego deve subir de 8% para 9,3%, segundo projeção da FGV.

“O ritmo do crédito ficou bem mais lento em outubro e já sabemos que a atividade industrial perdeu força”, afirma Pedro Paulo da Silveira, economista-chefe da Gradual Corretora. “Não temos razão para acreditar que novembro será melhor.” Os primeiros setores a sentir a crise são aqueles que dependem mais do crédito. Construtoras que aproveitaram o boom na bolsa para captar recursos começaram a segurar projetos e a vender terrenos para fazer caixa. Enquanto aguardam a ajuda prometida pelo governo, algumas companhias do setor anunciaram as primeiras demissões. As vendas de carros em outubro foram tão fracas que o governo empurrou R$ 4 bilhões do Banco do Brasil para irrigar as linhas de crédito.

“O pânico deu lugar à cautela”, resume a economista Virene Matesco, da FGV. “Os bancos aos poucos voltam a emprestar, as empresas se adaptam ao novo cenário e a volatilidade vai caindo. Mas não vamos voltar ao ritmo de antes de setembro.”

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2 Comentários

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  1. […] que não deve haver nenhuma necessidade, como no passado, de convencer os líderes mundiais da força da economia brasileira e da importância que assumiu o gigante sul-americano no cenário geopolítico […]

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  2. […] turbulência financeira começou a ser anunciada em 2006 e 2007 e se concretizou no final de 2008. A crise se deu porque […]

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